São José tem quase 28 mil pessoas na fila da habitação à espera de uma casa própria popular. São pessoas, em sua maioria, em vulnerabilidade social e financeira. É caso, por exemplo, de Maria Vandeslânia da Silva Gama, 36 anos. Com três filhos entre 7 e 18 anos, ela vive com R$ 622 por mês oriundos de um benefício saúde. Num ou noutro mês, a renda melhora sensivelmente, quando o filho mais velho consegue um trabalho temporário e ajuda nas contas.
Maria não consegue trabalho, pois é deficiente visual. Por mês, paga R$ 500 de aluguel para morar numa residência humilde no Jardim Interlagos, zona sul. “Moro nesta casa há 33 anos. Entrei na fila por uma casa só recentemente, quando perdi a visão direita. Depois disso, vi que não existe inclusão. Ninguém quer contratar uma pessoa com deficiência”, disse Maria.
A fila da qual Maria faz parte vem crescendo consideravelmente nos últimos anos. Em 1997, primeiro ano de mandato do ex-prefeito Emanuel Fernandes (PSDB), eram 14 mil inscritos. Com as 1.300 famílias despejadas do ex-acampamento dos sem-teto no Pinheirinho neste ano, a fila reúne hoje cerca de 28 mil pessoas. Dobrou em 16 anos de governos tucanos.
No período, a média de casas populares construídas foi de 387 por ano. Mantida a proporção, levaria 72 anos para acabar com o déficit habitacional da cidade isso se a demanda ficar estagnada. São José também esconde uma cidade invisível, que passa quase despercebida do poder público. Na listagem oficial, reconhece-se a existência de 93 bairros clandestinos na cidade. Paralelamente, outros 41 surgiram nos últimos anos.
Nesses núcleos irregulares, que cresceram à revelia da administração municipal, vivem pelo menos 50 mil pessoas. Entre elas está Vera Lúcia de Souza, 47 anos, que mora no Jardim Coqueiro com dois filhos, de 13 e 14 anos. É sem hesitação que ela enumera problemas que a atingem enquanto moradora de loteamento clandestino.
“Primeiro, somos discriminados. Quando estou numa loja para comprar alguma coisa e falo que eu moro no Jardim Coqueiro, vem aquele olhar de ‘você é um invasor’. Nós não temos manutenção nas ruas. É, pode confiar, no máximo uma vez por ano que vemos a prefeitura melhorando os buracos das ruas. É muito pó, muita gente com problemas respiratórios, muita água parada.”
Vera critica ainda a falta de ônibus, já que são poucas linhas e poucos carros atendendo bairros populosos como Jardim Santa Inês 1 e 2, Frei Galvão e Jardim Coqueiro. “Estamos ao léu.” A habitação deve dominar o debate eleitoral neste ano em São José. Os sete candidatos a prefeito da cidade explicam hoje a O VALE como pretendem trabalhar o tema.
Enquanto isso, Maria e Vera sonham com uma vida melhor. “Nem sei te explicar o que seria uma casa para mim, independentemente do lugar. O importante é não pagar aluguel. Aí, poderia comprar roupas para os meus filhos”, disse Maria. “Somos irregulares por culpa de um loteador. Compramos nosso terreno e falta a regularização. Queremos pagar impostos e termos um olhar mais humano para nós”, afirmou Vera.
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