País continua com a Jornada Mudial de Jovens com o Papa

Uma Copacabana lotada, com fiéis eufóricos sob o frio e a chuva e registros de desmaios em série causados pela aglomeração próxima ao palco, recebeu Francisco no início da noite ontem no Rio de Janeiro no primeiro ato do papa dedicado aos jovens. Para uma multidão de peregrinos, que foi estimada em 1,5 milhão de pessoas, o sumo pontífice disse que “o trem” da Jornada Mundial da Juventude chegou à última etapa do projeto “bote fé”.

“Sempre ouvi dizer que os cariocas não gostam do frio e da chuva. Mas vocês estão mostrando que a fé é mais forte que o frio e a chuva. Você são verdadeiros guerreiros. Botem fé e a vida terá novo sabor”, disse o papa Francisco.Ele apareceu às 17h20, quando subiu no papamóvel e iniciou o percurso do Forte de Copacabana até o palco da jornada, no Leme. Por toda a praia, onde foram instalados telões, o público reagia aos berros à sua imagem.  Sorridente, Francisco beijou crianças e distribuiu acenos. Recebeu até um chimarrão de um peregrino, sorveu o mate e devolveu a cuia.

O clima era de comoção, mas houve também momentos tensos. Os que chegaram cedo e conseguiram ficar próximo às grades que separavam o povo do papamóvel foram pressionados pela multidão. A plateia tinha muitos idosos, que sofreram mais. Em apenas 30 minutos, a reportagem viu mais de 20 pessoas sendo carregadas para o posto médico mais próximo do palco. Resgatar os desmaiados do meio da multidão exigia grande esforço dos voluntários, já que a aglomeração dificultava o deslocamento. Muitos vinham arrastados. O transporte público também mostrou que não está totalmente preparado para atender a multidão. Muitos reclamaram que demoraram bastante para conseguir chegar, principalmente de ônibus, a Copacabana.

Ao final do evento, o povo se espalhava em pelo menos seis quadras de fila para tomar o metrô na estação mais próxima ao palco, a Cardeal Arco Verde. As fortes chuvas que atingiram o Rio de Janeiro nos últimos dois dias soterraram os planos da organização da Jornada Mundial da Juventude de realizar eventos no Campus Fidei, em Guaratiba, zona oeste da cidade. Tanto o encontro de amanhã quanto a missa de encerramento no domingo, ambos com participação do papa Francisco, foram transferidos para a praia de Copacabana. Apesar de ter passado por terraplenagem e obras de infraestrutura para receber os estimados 1,5 milhão de peregrinos, o Campus Fidei não aguentou as chuvas.

“Decidimos cancelar e como tem vigília [os peregrinos passariam a noite de sábado para domingo no terreno, ao relento], sob o ponto de vista de saúde, colocaria pessoas em risco”, afirmou ontem o prefeito Eduardo Paes. Moradores da região ouvidos pela reportagem dizem que choveu ininterruptamente nos últimos dois dias. Papa abençoa hoje 4 sobreviventes do massacre Quatro sobreviventes do massacre na escola municipal Tasso da Silveira, em Realengo (Rio), que têm 14, 15, 16 e 18 anos, serão abençoados hoje pelo papa Francisco no altar montado em Copacabana, logo após a Via-Sacra. Em 7 de abril de 2011, um ex-aluno invadiu a escola, matou 12 crianças e cometeu suicídio logo em seguida.

Aparecida vira Capital do mundo diante de Papa

Aparecida se transforma hoje na capital mundial da fé. Fiéis de todos os cantos do mundo vieram para ver e ouvir o papa Francisco, que celebrará uma missa no maior templo mariano do mundo, o Santuário Nacional de Aparecida. O pontífice e milhares de peregrinos farão uma jornada de devoção à Padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida. A pequena imagem da santa ouvirá tanto as orações particulares do papa, que rezará em uma capela reservada, quanto os gritos de júbilo da multidão. São esperadas 200 mil pessoas na cidade.

Centenas de peregrinos passaram a noite numa fila do lado de fora da Basílica, enfrentando a chuva e o frio, para conseguir os melhores lugares na missa do papa. Gente que viajou milhares de quilômetros para olhar nos olhos de Francisco e confirmar a fé que depositam no papa latino-americano. “É uma pessoa especial. A gente sentiu isso desde o primeiro momento, quando ele foi anunciado como novo papa”, disse o estudante Ifenna Awagu, 15 anos, da Nigéria. Ele e um grupo de 16 jovens do país africano chegaram no último domingo para participar da missa com o papa em Aparecida. Nada entendem de português, mas conseguiram fazer amizades.

“Somos uma só família. A gente não entende a língua, mas compreende o espírito cristão”, explicou a professora Ana Maria de Oliveira, 32 anos, de Mato Grosso do Sul. Foram mais de 15 horas de viagem de carro, avião e ônibus para chegar a Aparecida. Tudo para rezar com o papa. “O carisma de Francisco e a força que ele tem dado para a juventude me deixaram muito contente.” Também sem entender nada do português, a estudante Hynn Jung Lee, 26 anos, veio de Seul, capital da Coreia do Sul, para conhecer o papa Francisco em Aparecida e no Rio de Janeiro. “A simplicidade do papa está encantando jovens no mundo inteiro”, disse.

A aposentada Floripes Soares Dias, 75 anos, e a sobrinha Maria Clara Medeiros, 15 anos, viajaram de ônibus durante a madrugada inteira de Vitória, no Espírito Santo, até Aparecida. Chegaram a tempo. “Vir a Aparecida sempre nos trouxe uma coisa muito boa. Com a presença do papa, então, acho que seremos mais abençoadas”, disse Floripes. Maria Clara fez questão de amarrar uma fita de Nossa Senhora Aparecida na grade de proteção da passarela, que liga a Basílica Velha ao Santuário Nacional. A prática surgiu nos últimos dias com os milhares de jovens estrangeiros que estavam em Aparecida.

“É uma maneira de pedir bênçãos para Nossa Senhora de um jeito diferente”, contou. André Bueno, 32 anos, professor de Barbosa Ferraz, no Paraná, chegou às 2h30 de anteontem e foi logo procurar um lugar na fila para a missa do papa. O sofrimento de ficar ao relento, segundo ele, será recompensando pela proximidade com o papa. A fé no poder das bênçãos do papa Francisco trouxe o aposentado José Carlos Costa, 65 anos, para Aparecida. Morador do Jardim Satélite, na região sul de São José, ele chegou às 17h30 de anteontem e abrigou-se no lado de fora do Santuário Nacional, no primeiro lugar na fila de espera para entrar na missa do papa, que será celebrada hoje.

Ao todo, Costa ficará quase 36 horas sentado esperando o momento de ver e ouvir Francisco, além de ser abençoado. “Vale muito a pena fazer o sacrifício de ficar ao relento, no frio e na chuva, para ser abençoado por um papa. É o terceiro que verei aqui em Aparecida”, disse o aposentado. Para aguentar o frio que chegou ontem, Costa veio munido de uma calça de mergulhador, daquelas que evitam que a pele se resfrie. Também trouxe roupa suficiente para três dias. Tudo em uma mochila, com uma pequena barraca e uma cadeira dobrável. Ontem, por volta das 18h, a fila ao redor do muro do Santuário Nacional já ultrapassava um quilômetro de extensão. Mais pessoas eram esperadas para chegar durante a madrugada de hoje.

O pintor Alfredo Manuel Santos, 52 anos, veio de João Pessoa, na Paraíba, para cumprir uma promessa que fez aos 30 anos. Na época, ele foi diagnosticado com câncer e desenganado pelos médicos. Perdeu o emprego e os amigos. Mas o tratamento deu certo e Santos ficou curado. “Sonhei que viria a Aparecida e beijaria os pés do papa para agradecer”, disse ele. As pulseiras que começaram a ser distribuídas hoje, às 5h, são itens obrigatórios para os que entrarão na Basílica Nacional para acompanhar a missa do papa Francisco no interior do Santuário. A previsão ontem era distribuir 13 mil pulseiras. Também vão entrar 2.000 convidados. Quem não entrar na Basílica terá que assistir a missa do pátio, por telões.